Boa noite Archimedes!
Mais um dia de calor; daqueles dias em que parece que o céu se aproxima da terra e te comprime contra ela. Como se fôssemos ser transformado em superfícies planas. Já pensou? A noite está sendo generosa; uma chuva miúda serviu para compensar o dia ingrato de calor insano. Uma brisa passa por aqui, refresca o corpo e a alma!
Da minha janela observo o quintal, sinto o frescor da noite. Por aqui há pouco barulho, poucas luzes. Com o tempo, como não poderia deixar de ser, fui adquirindo manias. Uma delas é uma total e completa aversão a ruídos. A não ser aqueles proporcionados por uma bela música...
Às vezes, quando por aqui estou, lendo, escrevendo, parece que uma ninfa voeja à minha frente; flana, numa roupa branca, transparente, que tudo sugere mas nada mostra. Observa-me, com doçura, como se velasse por mim, como se me inspirasse. Um halo de luz a circunda; vejo seus olhos brilharem na escuridão!
Aquieto-me, amanso-me, como se isso fizesse com que ela por aqui permanecesse indefinidamente! Os momentos de calma e de tranquilidade que me invadem parecem que se perpetuarão. Mas, assim como veio, se vai... Deixa um rastro de paz no ar. Lembra aquela fadinha do filme "Peter Pan", lembra? "Sininho", se a memória não me trai. Nem tanto infantil diga-se de passagem!
Mas, lembra do que conversávamos na última vez? Sobre o conto a respeito do personagem de Raiz da Serra? Pois é... Após o contato, a constatação de que "para quem nada sabe não existem angústias", fiquei imaginando que a eles é poupado o cansaço mental das informações excessivas. Felizes, tranquilos, cansaço apenas fisico!
Ah! Archi.... Vc se foi antes da internet; antes da transformação do mundo em "aldeia global", como previsto. Vc foi poupado! Mas, por que tudo isso numa mansa noite de domingo? Apenas para te dizer que se conseguíssemos, como o participante do meu conto, viver apenas daquilo qe entendemos, o sofrimento seria bem menor! Aceitaríamos com mais facilidade; os cansaços seriam apenas físicos, da jornada braçal do trabalho. Não haveria, como nos versos daquela música:
"Vim pela noite tão longa
de fracasso em fracasso.
E hoje descrente de tudo
me resta o cansaço:
cansaço da vida,
cansaço de mim.
Eles se chegando
e eu chegando ao fim..."
Sim, penso nisso, amiúde. Mas me consolo no pragmatismo, no ceticismo, muitas vezes. Não como forma de vida, de ação. Mas de reconhecimento das minhas impossibilidades e das minhas limitações.
Talvez tenha a ver com meu pai. Lembro-me de que, numa das nossas conversas você dele me perguntou.
Como te disse, para mim ele morto permaneceu depois dos meus cinco anos, após nos abandonar: à mamãe, meus irmãos e a mim. Morto ele permaneceu, na minha memória afetiva, desde aquela época, a dos 5 anos.
Morto, efetivamente, eu o vi há cerca de 20 anos, como consideração a um pedido do seu irmão - meu tio - quando do seu passamento. Apenas um ato formal...
Para mim, amor filial não depende de um momento de prazer, de idêntico sangue, de genética! Mas, isso sim, de presença física, exemplos, mútuos auxílios, amparo. Participação, sacrifícios!
Pais e parentes biológicos não se escolhem; vêm, como fator natural. Pais efetivos, muitas vezes, ou na sua maioria, nada têm a ver com biologia, mas com carinho, amor e amparo: a presença constante! a participação!
Por isso tudo, considero hipocrisia supostas manifestações de amor de pessoas que sem parentes biológicos ficam por longo tempo. Não há amor, mas apenas curiosidade. Tributo isso à sensação de reconhecimento social: as pessoas, de maneira geral, apreciam tais comportamentos.
De há muito queria te dizer isso tudo. Nas nossas andanças estivemos preocupados em desfrutar, no prazer da companhia, das conquistas, das seduções! Conversamos sobre aqueles temas áridos do existencialismo, da filosofia de almanaque. Mas, quase nunca sobre nossos próprios sentimentos... Creio que o faremos por aqui!
Voltarei...
Boa noite!
W.
domingo, 10 de fevereiro de 2008
Assinar:
Postar comentários (Atom)

Um comentário:
Archimedes ficaria muito curioso com a realidade atual.
Lindo texto!
Começou bem PaiWilson!
Abração
Postar um comentário