Boa noite Archimedes...
Estive ausente, como vc sabe. Compromissos, falta de vontade, conflitos existenciais, aquilo nos aflige sem que tenhamos explicações...
Aliás, a última carta ficou truncada! Não houve o término das impressões do ceguinho sobre o corpo da mulher nua... Que pecado! Mas, tenho certeza de que vc entendeu. Nunca precisamos de grandes explicações para que nos entendêssemos, não é verdade? Nos olhares, nas palavras ditas pela metade; a leitura das entrelinhas.
Nessas ocasiões a poesia pessimista me toma, me enleva; vamos a Augusto dos Anjos, lembra?
Como em "Versos Íntimos":
"Vês! Ninguém assistiu ao formidável
Enterro da tua última quimera.
Somente a Ingratidão - esta pantera -
Foi tua companheira inseparável!
Acostuma-te à lama que te espera!
O Homem que, nesta terra miserável,
Mora entre feras, sente inevitável
Necessidade de também ser fera..."
E por aí vai, como "o beijo, amigo, é a véspera do escarro,/a mão que afaga é a mesma que apedreja...
Temos outras preocupações, porém, principalmente com o "status quo" (do qual foi você beneficiado com a privação)...
Depois de muito tempo foi eleito um homem do povo, poder-se-ia dizer. Olhando a sua estória, de migrante nordestino, sofredor, irmão de muitos irmãos, mãe sofredora, abandonada pelo marido...
De alguma maneira, lembra a minha própria estória. O abandono pelo pai; o sofrimento da mãe para que fôssemos corretos, dignos, não nos perdêssemos. Seus sacrifícios, seus exemplos. Inflamamo-nos de esperança de que haveríamos de ter, finalmente, alguém com sensibilidade para as necessidades mais comezinhas da população...
A mim, pessoalmente, que professor fui por tantos anos, Archimedes, vislumbrei a possibilidade do retorno da dignidade da carreira do magistério: o respeito da sociedade pelos educadores e educadoras! Quem sabe, um retorno à Escola Normal, à formação de normalistas? Lembra do respeito que tínhamos pelas professorinhas? Das lembranças daquelas que marcaram nossas vidas? Ainda mais com as notícias de abandono e de desprezo governamental pela carreira!
Pululam notícias de professores e professoras sendo agredidos diuturnamente em sala de aula. Já pensou? E o pior! Na maioria das vezes sem qualquer amparo de quem de direito!
Deu-se uma banana ao respeito e à disciplina!
Assim, tínhamos fundadas esperanças com o novo eleito....
Ledo engano! O que estamos vendo é uma política de atendimento, de subserviência aos de sempre. O nosso Presidente, vc acredita, deixa-se fotografar com um copo de bebida alcoólica, mas não com um livro nas mãos! Chega, inclusive, a demitir o Ministro da Educação rapidamente, por ter propostas e, presumo, incomodar! Faz questão de afirmar que não há necessidade de estudos para ser Presidente! É, tem razão, realmente não há necessidade!
Mas, alisa a cabeça e defende "companheiros" com notórios desvios de conduta, além de desvios outros de recursos públicos.
Então, a "quimera" a que se referia Augusto dos Anjos tem razão de ser! A esperança de políticas de longo prazo focadas na educação, na saúde, deu lugar a populismos, assistencialismo.
E não é que deu certo? Vc nem imagina o quanto! As políticas assistencialistas colocaram a popularidade dele nas alturas. E o quadro não mostra indícios de mudança.
E a esperança foi vencida pelo desencanto, pelo desalento! A impossibilidade de alterar o "status quo", pelo menos a curto prazo, faz com que nos recolhamos àqueles pensamentos de isolamente, de abstinência, de nojo para com tudo o que se relaciona com o bem público.
Mas, não pense que temos só fracassos! Pelo contrário: o País tornou-me uma referência na máquina de arrecadação! Vc precisa ver a capacidade dos órgãos arrecadadores do Estado!
Recordes e recordes de arrecadação são anunciados mês a mês.
Pena que, como vc deve saber, o excesso recaia sempre sobre os mesmos e que os valores não retornem para os investimentos que imaginávamos prioritários... Na sua maioria são utilizados apenas para o custeio da máquina (descontados os percentuais da corrupção, diga-se de passagem).
Amargo estou hoje Archimedes! Gostaria de falar das noites encantadas de poesia, dos prazeres compartilhados com estranha que hoje apenas são lembranças físicas!
Mas, além de Augusto dos Anjos, baixou-me o espírito de Fernando Pessoa... Não discutimos muito ele, por ignorância.
AUTOPSICOGRAFIA
O POETA é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega e fingir que é dor
A dor que deveras sente.
E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Nas as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.
E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama coração."
E então por aqui ficamos Archimedes... Espero voltar com melhoras, na próxima...
segunda-feira, 25 de fevereiro de 2008
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