segunda-feira, 14 de junho de 2010


Caro Archimedes...

Que saudade!
Lembrei-me de ti ao folhear antigos escritos; aqueles que para poucos mostrei com vergonha das críticas...

Lembra de alguns, ingênuos?


"A NOITE CAI, MINHA AMADA...
ANTES QUE O PICHE ENEGRAÇA-NOS,
ANTES QUE O TEMOR PELO OCULTO
SOBRESSALTE OS CORAÇÕES,
MEDO NÃO TENHO!
MIRO-ME E FORTALEÇO-ME
NA LUMINOSIDADE DOS TEUS OLHOS!"

ou:

"VOU DESTRUIR TODOS OS ESPELHOS!
GRANDES, PEQUENOS, QUADRADOS, REDONDOS.
ATÉ HOJE NÃO CONSEGUI SIMPATIZAR
COM A FISIONOMIA ESTAMPADA EM SUAS FACES,
SE SOFREMOS SEM MOTIVO
ELIMINEMOS AS CAUSAS!"

ainda:

"SE A BRANCA É DE NEVE,
E A PRETA DE PICHE,
DO QUE SERÁ A AMARELA?"

Antes de ir quero te falar de algo.
Recentemente fui procurado para aconselhar uma mãe preocupada com um filho, único filho, que quer abrir suas asas e partir, buscar seu destino. A mãe, como a minha, também é pai. Não sabe como suportará a dor - que já sofre por antecipação - da ausência, da partida... Busquei socorro num autor que aprecio - Rubem Alves - e em outros que ele cita.

Claro que citei a minha própria experiência ao desmamar os meus... Mas isso é outra estória. Eis o que disse...

SER PAI.... (OU MÃE)
(Extraído de Rubem Alves)

Tomar a decisão de ter um filho é algo que irá mudar sua vida para inteira de forma inexorável. Dali para a frente, para sempre, o seu coração caminhará por caminhos fora do seu corpo.
Bachelard disse que:
“para o pássaro, o ninho é indiscutivelmente uma cálida e doce morada. É uma casa de vida: continua a envolver o pássaro que saiu do ovo. Para este, o ninho é uma penugem externa antes que a pele nua encontre sua penugem corporal.”
É isso que todos queremos ser: UM NINHO PARA NOSSOS FILHOS. Queremos que nossos corpos sejam ninhos-penugem que os protegesse.
Que felicidade enche o nosso coração quando o filho que temos no colo se abandona e adormece. Adormecida, a criança está dizendo:
“está tudo bem, não é preciso ter medo.”
Deitada adormecida nos braços-ninho, ela aprende que o universo é um ninho! Não importa que não seja! NÃO IMPORTA QUE OS NINHOS ESTEJAM DESTINADOS AO ABANDONO, AO ESQUECIMENTO! A alma não se alimenta de verdades. Ela se alimenta de fantasias. O ninho é uma fantasia eterna.
A cena da criança adormecida nos reconduz à cena de uma criancinha adormecida na estrebaria de Belém! Tudo é paz! Desejaríamos que ela, a cena, não terminasse nunca: que fosse eterna!
Logo o pequeno pássaro começará a ensaiar seus vôos incertos. Agora não serão mais os braços dos pais, arredondados num abraço, que irão definir
o espaço do ninho. Os braços terão que se abrir para que o ninho fique maior. E SERÃO OS OLHOS DOS PAIS, NO ESPAÇO QUE SEUS BRAÇOS JÁ NÃO PODEM CONTER, QUE IRÃO MARCAR OS LIMITES DO NINHO. A criança se sente segura se, de longe, ela vê que os olhos dos pais a protegem. OLHOS TAMBÉM SÃO COLOS, OLHOS TAMBÉM SÃO NINHOS. “Não tenha medo. Estamos aqui! Estamos vendo você.” É isso que os olhos dos pais dizem.
O que a criança deseja não é liberdade. O que ela deseja é excursionar, explorar o espaço desconhecido – desde que seja fácil voltar.
O tempo passa. Os pássaros tímidos aprendem a voar sem medo. Já não necessitam dos olhares tranqüilizadores dos pais. É a adolescência. Adolescente não quer ninho. Adolescente quer asas. Os ninhos agora só servem como pontos de partida para vôos em todas as direções. Liberdade, voar, voar, voar... Porque a vida não está no ninho, está no vôo.
E, num determinado dia, chega o momento quando os filhos partem para não mais voltar. E assim determinam o destino dos ninhos, de todos os ninhos: o abandono.
Gibran Kahlil Gibran disse, se dirigindo aos pais:
“vossos filhos não são vossos filhos. Vossos filhos são flechas. Vós sois os arcos que dispara a flecha. Disparadas as flechas, elas voam para longe do arco. E o arco fica só.”
Este o destino dos pais: a solidão. Não é a solidão de abandono. Nem a solidão de ficar só. É a solidão de ninho que não é mais ninho. E está certo. Os ninhos deixam de ser ninhos porque outros ninhos vão ser construídos. Os filhos partem para construir seus próprios ninhos e é a esses ninhos que deverão retornar.
Assim é na natureza. Assim é com os bichos. Deveria ser conosco também. Mas não é. Quem tem filho tem o coração fora do lugar, coração que
caminha, para sempre, por caminhos fora do próprio corpo. Caminha, clandestino, no corpo do filho. Disse Adélia Prado:
“Pior inferno é ver um filho sofrer sem poder ficar no lugar dele.” E, disse Vinicius de Morais:
“Eu, muitas noites, me debrucei sobre teu berço e verti sobre teu pequenino corpo adormecido as minhas mais indefesas lágrimas de amor; e pedi a todas as divindades que cravassem na minha carne as farpas feitas para a tua...”
É inevitável e bom que os filhos deixem de ser crianças e abandonem a proteção do ninho.
É inevitável e bom que os filhos voem em todas as direções como andorinhas adoidadas...
É inevitável e bom que eles construam seus próprios ninhos e fiquemos com o ninho abandonado...
Mas, o que queríamos, mesmo, era poder, de novo faze-lo dormir no nosso colo!"


Creio que você assinaria em baixo...
Saudades!

Beijo-o carinhosamente...

sexta-feira, 4 de junho de 2010


Caro Archimedes...

Ausente daqui, mas presente sempre!
Para te dizer das maravilhas da vida, dos encantos das presenças silenciosas, dos poemas cantados com os olhos, entendidos com o corpo...



PRAZER E ALEGRIA...


Li em algum lugar que: (*)


“Não importa o que fazem com você. O que importa é o que você faz com aquilo que fizerem com você.”
Li em algum lugar que:
“... por detrás de todas as queixas dos que procuram alívio há um único pedido: “Quero alegria!”. Alegria é a oração universal de todos os seres...”
“Há receitas para os prazeres. Mas não há receitas para as alegrias.”

Li em algum lugar que:
“Quem é feliz sempre, e nunca sofre, padece de uma grave enfermidade e precisa ser tratada a fim de aprender a sofrer.”

Continuando...
“Sofrer pelas razões certas significa que estamos em contato com a realidade e que o corpo e a alma sentem a tristeza das perdas e que existe em nós o poder do amor.”
Li em Willliam Blake:
“VER UM MUNDO NUM GRÃO DE AREIA
E O CÉU NUMA FLOR SILVESTRE,
TER O INFINITO NA PALMA DA SUA MÃO
E A ETERNIDADE NUMA HORA.”



Li em Cecilia Meirelles:
Entre o desenho do meu rosto
E o seu reflexo,
Meu sonho agoniza, perplexo.
Ah! Pobres linhas do meu rosto,
Desmanchadas do lado oposto,
E sem nexo!
E a lágrima do seu desgosto
Sumida no espelho convexo!”

E o que digo eu:

Que as receitas de prazer são várias;
Que os processos de prazer são imensos;
Que as sensações de prazer são intensas!
Que os gozos proporcionados pelo prazer são indescritíveis:
Mais do que descritos, são sentidos.
Então, imagine o prazer da alegria, com o prazer:
A alegria se rever, de voltar a sentir,
E não simplesmente de prazer ter...

Assim, se instrumento de alegria,
Alegria que te proporciona o meu retorno,
O meu sentimento, a minha poesia,
Poder não ser,

Que não o seja de sofrimento!
Do sofrer sem causa,
Do sofrer pelo sofrer!


(*) Textos extraídos de livros de Rubem Alves.

Florianopolis, maio de 2.010.

sexta-feira, 9 de abril de 2010

AS DELICIAS DE SER AVÔ


Caro Archimedes...

Noites de outono...
Algo que marcou-me e me marca até hoje são as tardes, belas tardes de outono!
AS tardes de outono de Curitiba...

O céu azul, sem nuvens! A temperatura amena. Ao longe o perfil magnífico da Serra do Mar.

Cada vez que venho para Florianopolis e olho a Serra do Mar que de mim se aproxima parece-me ver a tua imagem estampada nos altos picos. Imagem que me acompanha, que me protege, que me ampara!

Sinto-o unipresente, do meu lado, acompanhando-me, orientando-me...

Desta vez, ao retornar trouxe comingo um pequeno tesouro em forma de gente: o Felipe, na magnitude dos seus 03 aninhos! Corajoso, se dispôs a passar o final de semana, sozinho! - conosco! Retorna na segunda com a avó para os braços dos pais!

Aqui estamos, dois avós, com as diferenças de idade cronológica, mas descendo ao nosso nível de crianças adultas que somos! Ouvindo e contando estórias, brincando, rolando, rindo!

Ouvindo, por exemplo:

BRIGA: No ano passado houve aquela confusão provocada pela torcida organizada do Coritiba no jogo final do campeonato brasileiro. Invasão de campo, brigas, agressões! Resultaram no rebaixamente do Coritiba para a segunda divisão e punições severas!
Felipe, na escolinha, presencia uma briga entre dois coleguinhas. Chega, aparta e, do alto de sua experiência de 3 longos anos, diz:

" - Quer "bigar"? Vai no "Couto Peleila"!!!!

Existem outras... Te conto mais à frente. Por enquanto ficaremos curtindo a figurinha... Faremos a barba juntos, tomaremos banho também! Alimentaremos juntos os peixinhos, os passarinhos do campo que vêm comer o que colocamos para eles...

Passearemos, conterei estórias... Magnífico, não?

Beijos de boa noite!

quarta-feira, 31 de março de 2010

REFLEXÕES DA SOLITUDE

Boa tarde Archimedes...

Como sempre em falta contigo...
Recolhido a outras atividades, curtindo os netos, lendo...

Leituras de Rubem Alves, "en passant". Anotando frases, sublinhando, sentindo, se deliciando!
Como, por exemplo, citando Bachelard:

"....as grandes comunhões não acontecem em meio aos risos da festa.
Elas acontecem, paradoxalmente, na ausência do outro. Quem ama
sabe disso.

É precisamente na ausência que a proximidade é maior."

E como! Ausencia de tudo que te desorienta, que te distrai. Como a questão de andar sozinho, com todos os sentidos em alerta para perceber que existe uma ave conhecida pousada num galho de árvore; um marulhar diferente do dia anterior... O mar límpido, tal qual piscina, pela ausência de vento. O suave farfalhar das folhas quando este chega!
Como isso seria possível se estivessemos em grupo, concentrados num ecercício por obrigação?

Quanta coisa por se dizer, por se sentir.

Falando em sentir... A melancolia veio-me assim, assim, sem ser chamada. Fui a um texto cometido há algum tempo:


V – Sentido da Vida

Olhando para o breu da noite,
Sentindo a solidão entre presenças,
O isolamento dentro das multidões,
O "não sentir" quando todos
parecem sentir.

Sinto apenas o meu "eu";
saindo e entrando no meu corpo,
flutuando à minha frente,
como se nada mais existisse
além de "mim"! Além de mim e
da natureza que me cerca!

Sentindo, mais, que para imensas
frustrações, para estresses,
são necessárias pequenas desilusões.

E para grandes alegrias,
Será que precisamos de
pequenas satisfações?"


Será?


Voltarei Arquimedes, voltarei!


Beijos saudosos!



segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010


Caro Archimedes...

Boa noite de Carnaval!


Noites de festa por aqui...

Festa para os olhos, para os corações...

Enquanto na avenida o povo comemora,
desfila... Busca saída para os desencantos
do dia-a-dia, por aqui aparecem anjos

para encantar o nosso!

Esse que vês é o Lucas! Uma bênção para
tantos quantos o aguardaram com espe-
rança, amor, mesmo antes de para cá vir. Agora conosco, na sua primeira viagem

para longe do seu recanto, do seu pequeno espaço.

Certamente ele nos olha e não nos vê,
embora nós achemos que sim!

Uma vovó principalmente, que o lambe com
o carinho de um animal com a cria...

A emoção de um netinho! Mais um é indescritivel!
Ei-lo que nada faz a não ser chorar, comer, dormir (além de
outras coisas, é claro), mas que consegue encher todos os espaços
dos nossos corações.

Poucos espaços, muito carinho! Diariamente fazemos planos para futuros encontros, futuras vindas. Esperamos ter as forças em dia, suficientes para jornadas de toques, de carinhos. O dia em que ouviremos os tão ansiados: "vovô" e "vovó" de sua boquinha!

Ah! Archimedes... quanto daria para que aqui estivesses, vibrando comigo, sorrindo comigo, brincando comigo na alegria da presença dele!

Parece que daqui consigo ver o teu sorriso, aquele sorriso que me acompanhou por tanto tempo, em tantas ocasiões!

Sei que certamente velas pelo Lucas, pelo Leonardo, pelo Felipe de onde estás e que, certamente, por todos nós!

Saudades imensas Archimedes!

Boa noite!



sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010


Caro Archimedes...
Boa tarde!

Dias festivos, feriados...
Aos poucos se enche de gente a "POUSADA DO CACUPÉ".
Uma visão noturna dela, ainda que já a conheças, dada a tua
visão global de tudo que por aqui acontece.

Estas ocasiões são especiais. O Felipe já está conosco, junto
com o Bruno. No domingo Lucas e os pais por aqui estarao.

Por enquanto me divirto com o Felipe, meu diuturno companheiro
de atividades!!!!

" - O que você vai fazer vovô?
- A barba, Felipe!
- Também quero, vovô.
- Vc é muito pequeno, Fe!!!
- Eu quero, vovô!"

Veja o resultado, Archimedes (rs).
Coisas que eu gostaria pelas quais vc tivesse passado, para
sentir a delicia da "avotura" (avô com aventura).

Não há o que explique... Apenas sente-se, vive-se, curte-se.
Simples assim!

No Carnaval que amanhã começa estarei me divertindo...

Voltarei...

Beijos saudosos!

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010


Archimedes, boa tarde!

HOJE ESTAVA REVENDO CERTOS ESCRITOS...

ALGUMAS COISAS QUE APRECIO, OUTRAS NEM TANTO.
UMA DAS QUE APRECIO, QUE QUERIA DIVIDIR CONTIGO...


NINFAS








Hoje, quando conversamos sobre a tua vinda, estava observando o

mar, silencioso pela ausência de vento, com o perfil de montanhas recortado no horizon-

te: negras figuras esculpidas por mágicas mãos, para o encanto daqueles que ainda se

apaixonam, que vivenciam simples paisagens.

Uma gaivota cruza o azul do céu, debruça-se sobre as águas

calmas agita um pequeno espaço... O resto parece observar, sem se importar com tão

simplória movimentação.



Observo mais atentamente, enquanto penso em ti, distante absor-

ta no teu dia-a-dia. Há um rompante, uma imagem súbita, diferente: vc se desgruda da

terra, do local onde está..., esvoaça qual a gaivota que acaba de me chamar a atenção,

cruza os ares, desce a serra graciosamente, circula aqueles montes que tanto admiramos

e paira por um momento nos picos que prendem a minha atenção.

Transmuta-se, retorna à tua forma habitual e, tal qual uma ninfa

desliza pelas águas serenas, lenta e decididamente, em minha direção. Chega à praia e

bate os braços, como se asas fossem e pousa do meu lado


- Como está o meu amor? Sentiu a minha falta? Alguma surpresa

para mim?
Beijo-a, enlaço tua cintura e entramos. A normalidade retornou