sexta-feira, 5 de junho de 2009

A HORA...


“Que buscas Caronte!
Que achas?
Estou só de passagem?

Não me parece a hora
Ter chegado... ainda muito por fazer,
Muito por querer,
Muito por sonhar...

Não sabes que isso
Não é tua escolha?
Teus desafortúnios acumulados
Estão a te desdizer:
Tuas mágoas reprimidas,
Desencantos recolhidos
Amores irrevelados
Maldades escondidas!

Mesmo?
Sempre me pensei virtuoso,
Distribuidor de graças,
De favores,
De amores!

Vamos, meu filho!
De carona no barco,
Na tranqüila gôndola,
Ornamentada para ti
Com as flores que amas,
Que cultivastes:
Rosas: brancas, amarelas, rubras,
(como os lábios de tantas mulheres!
Como o sangue que afogueou seus semblantes,
Como as unhas que te lanharam,
O corpo e a alma!)

Está tudo tão escuro!
Nenhuma luzinha no lago de breu!
Nenhuma esperança para o sonho meu?

Vem!
Tranqüilo singraremos,
Inebriados pelo perfume das flores

Pelos acordes dos Noturnos,
Pelo carinho da brisa em
Nossos corpos nus!
Pela sensação de corpos
Femininos te tocando,
Bicos hirtos em seios fartos!
Peles sedosas, jovens, firmes!
Como tantas vezes desejastes!

Nem um até logo?
Nem uma última visão do rosto
Sempre presente dos filhos, dos netos?
Da companheira de tanto tempo?

Por que?
De lá, se acreditas, as
Imagens contigo estarão!
Sem as emoções das presenças
Mas com o sentido da permanência,
Eterna, profundas, sem sentimentos
Sem sofrimentos por
Desentendimentos vãos,
Mas com o carinho sempre presente
Das melhores lembranças!

Ah! Não creio Caronte!
Queres que me entregue a ti
Sem luta, sem receios,
Sem busca de outras
Alternativas! Sem que
Minhas forças – últimas –
Me levem àquilo que sempre quis:
Paz por aqui, realizações,
Emoções, amores!

Vem, meu filho!
Eis que tarda! A noite se vai...
O lago tranquilo nos espera
A lua brilhante nos acompanhará...

Para onde?
Por que?

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